05/08/10

BADALADAS - TEXTO 53 - 30 JULHO 2010



DE SANTARÉM A VILA FRANCA

POPULAÇÕES EM FUGA E BENS DESTRUÍDOS

José NR Ermitão


          A “política de terra queimada” foi um dos pilares da estratégia de Wellington para derrotar os franceses. E o exército luso-britânico, na sua retirada para as Linhas de Torres cumpriu à letra esta política, levando à sua frente os habitantes e destruindo muitos bens para que não caíssem nas mãos dos franceses. Esta política, tanto quanto as depredações dos franceses, arruinou o país, fez diminuir a produção agrícola, aumentou a mortalidade e traduziu-se num enorme sofrimento para os portugueses.  
Apresento parte do texto intitulado «Santarém», extraído de uma colectânea publicada por W. H. Maxwell (1), que constitui uma autêntica peça jornalística pelo rigor descritivo e visual com que retrata o percurso concreto de um corpo militar aliado de Santarém até às Linhas, a situação dos habitantes, o estado de espírito das tropas e as destruições sistemáticas que iam fazendo sobretudo nas adegas, sem esquecer as bebedeiras. Com candura, o autor confrange-se com o destino das populações desprotegidas, ao mesmo tempo que lhes destrói o produto do trabalho para evitar que caísse nas mãos dos franceses...

          “Os vinhedos em torno de Santarém estavam carregados de uvas deliciosas prontas para a vindima... Doces como mel, os tentadores cachos pendiam mesmo à beira da estrada. Nem é necessário dizer quanto os nossos soldados as atacavam, comendo-as ou levando-as consigo. Era também a estação do amadurecimento das laranjas.... Também as laranjas foram arrancadas das árvores para que os invasores as não aproveitassem.
A tropa estava com o moral elevado e os soldados portugueses que faziam parte dela... entretinham-se com histórias sobre o seu possível futuro. Uns diziam que iriam pescar bacalhau com os ingleses; outros, que embarcariam para a Mauritânia em busca de D. Sebastião. Mas todos eles concordavam num ponto, que combateriam os franceses quando e onde “o Grande Lorde” (Wellington) mandasse.
          Entretanto a maior parte dos habitantes de Santarém já tinha abalado... para Lisboa e os poucos que ficaram partiam à medida que as nossas tropas marchavam pelas ruas na manhã do dia sete (de Outubro). (...)
Em Vila Franca, Azambuja e Cartaxo a vindima estava mais avançada... O vinho já fermentava nas dornas quando a tropa em retirada apareceu naquelas vilas. (...)
Desgraçadamente os seus habitantes ficaram fora das linhas defensivas que estávamos prestes a ocupar e, portanto, ficaram ao alcance das depredações do inimigo. Assim, destacamentos de soldados foram enviados para abrir as torneiras e partir todos os tonéis que pudessem encontrar. Os nossos homens, no despenho do seu dever, chegaram a andar com vinho até ao peito nas adegas submersas, para inutilizar o vinho que inundava literalmente as ruas. Foram destruídos desta maneira mais de quarenta mil al-mudes (2).
Em Vila Franca, os soldados não resistiram à tentação de tragar daquele delicioso líquido à medida que este se espalhava pelas ruas abaixo. Vinham aos magotes encher os cantis, e muitos, mas mesmo muitos, atiraram-se para aquela espumosa fonte de Baco, adorando o deus do vinho até ficarem completamente bêbados, estado em que, como odres, foram carregados para cima das mulas e conduzidos para a frente, sob pena de caírem nas mãos do inimigo.
O vinho destruído desta maneira era só uma pequena parte da produção daquelas regiões. A maior parte ficou nas adegas situadas longe da estrada porque já não havia tempo para as destruir; e assim caiu, juntamente com outras boas coisas da Providência, nas mãos dos espoliadores do país (os franceses).
O tempo, que tinha estado delicioso durante a nossa retirada, piorou na tarde do dia 7 de Outubro, o dia anterior à tomada das nossas posições dentro das linhas de defesa. A multidão de portugueses em fuga tinha-se por esta altura já acolhido em algum lugar ou já estava dentro das linhas. Tivessem as fortes chuvadas começado a desabar dez dias antes e um grande número deles teria morrido enregeladas ou por causa das dificuldades dos caminhos.”

(1) Peninsular Sketches by actors on the scene, London, 1845.
(2) Cerca de 2 400 000 litros.