29/07/08

Texto 13 ( Jornal "BADALADAS", 25 / 07 / 2008 )

Príncipe regente D. João (futuro rei D. João VI)



O príncipe regente D.João comunica a passagem da família real para o Brasil

JOSÉ NR ERMITÃO *

No dia 24 de Novembro de 1807, com o exército francês já próximo de Abrantes
e com o conhecimento do teor do Tratado de Fontainebleau – segundo o qual a
Casa de Bragança deixava de reinar e o país seria dividido em três partes – O
Conselho de Estado reúne e delibera «acelerar o embarque... da Real Família para
o Brasil». D. João, pelo decreto que se transcreve, comunica o facto ao país, nomeia
uma Junta Governativa, assina um conjunto de instruções (uma delas recomendando
que o exército francês seja bem recebido) e deseja felicidades aos
portugueses.
Do decreto são apresentados unicamente os trechos mais relevantes; parágrafos,
grafia e pontuação actualizadas.

REAL DECRETO DE 26 DE NOVEMBRO DE 1807

Tendo procurado por todos os meios possíveis conservar a neutralidade de que
até agora têm gozado os meus fiéis e amados vassalos, e apesar de ter exaurido o
meu real erário e de todos os mais sacrifícios a que me tenho sujeitado, chegando ao
excesso de fechar os portos dos meus reinos aos vassalos do meu antigo e leal aliado
o rei da Grã Bretanha, expondo o comércio dos meus vassalos à ruína e a sofrer por
este motivo grave prejuízo nos rendimentos da minha coroa, vejo que pelo interior do
meu reino marcham tropas do imperador dos franceses e rei de Itália, a quem eu me
tinha unido no continente na persuasão de não ser mais inquietado, e que as mesmas
se dirigem a esta capital.
Querendo eu evitar as funestas consequências que se podem seguir de uma
defesa que seria mais nociva que proveitosa, servindo só para derramar sangue em
prejuízo da humanidade e capaz de acender mais a dissenção de umas tropas que
têm transitado pelo reino com o anúncio e promessa de não cometerem a menor
hostilidade; e conhecendo igualmente que elas se dirigem contra a Minha Real
Pessoa, e que os meus leais vassalos serão menos inquietados ausentando-me eu
destes reinos, tenho resolvido, em benefício dos mesmos meus vassalos, passar com a
Rainha Minha Senhora e Mãe e com toda a Real Família para os estados da América
e estabelecer-me na cidade do Rio de Janeiro até à paz geral.
E considerando mais quanto convém deixar o governo destes reinos naquela ordem
que cumpre ao bem deles e de meus povos, como coisa a que tão essencialmente
estou obrigado, tendo nisto todas as considerações que em tal caso me são
presentes, sou servido nomear para na minha ausência governarem e regerem estes
meus reinos (
seguem-se os governadores: marquês de Abrantes, Francisco Menezes,
Principal Castro, Melo Breyner, Francisco de Noronha e outros)...Tenho por certo
que meus reinos e povos serão governados e regidos por maneira que a minha consciência
seja desencarregada e eles, Governadores, cumpram inteiramente a sua
obrigação, enquanto Deus permitir que eu esteja ausente desta capital... na conformidade
das Instruções que serão com este decreto por mim assinadas.
(Local, data
e assinatura.)

(Seguem-se as Instruções, constituídas por generalidades sobre a administração
imparcial da Justiça, guarda dos privilégios concedidos, modo de tomada de decisões,
nomeação de pessoas adequadas para os cargos de letras, oficiais da justiça,
fazenda e exército; e pela instrução específica que se segue).

(Os governadores) Procurarão quanto for possível, conservar em paz este reino;
e que as tropas do imperador dos franceses e rei de Itália sejam bem aquarteladas e
assistidas de tudo o que lhes for preciso enquanto se detiverem neste reino, evitando
todo e qualquer insulto que se possa perpetrar e castigando-o rigorosamente quando
aconteça; conservando sempre a boa harmonia que se deve praticar com o exército
das nações com os quais nos achamos unidos no continente.
(...) Confio muito... que meus povos não sofrerão incómodo na minha ausência; e
que, permitindo Deus volte a estes meus reinos com brevidade, encontre todos
contentes e satisfeitos, reinando entre eles a boa ordem e tranquilidade que deve
haver entre vassalos que tão dignos se têm feito do meu paternal cuidado. Palácio de
Nossa Senhora da Ajuda em 26 de Novembro de 1807.
Com a assinatura do Príncipe
Regente.

* Professor
Nota da Coordenação:
Os textos que aqui vimos publicando não obedecem necessariamente
a uma ordem cronológica. Eles resultam da abordagem pessoal e da disponibilidade
dos nossos colaboradores, a partir da imensa bibliografia existente sobre a
Guerra Peninsular. São olhares parcelares e dispersos que, no final da série, em 2010, e
depois de ordenados por temas e datas, poderão constituir a base de um livro que ficará
como testemunho da nossa evocação histórica do Bicentenário das Invasões Francesas.

Texto 12 ( Jornal "BADALADAS", 18 / 07 / 2008 )

Batalha da Roliça


Campo de batalha da Roliça, primeiro recontro


Alto do Picoto, lugar do segundo recontro da batalha da Roliça




A Batalha da Roliça


Pedro Fiéis *


Rapidamente chegaram a Lisboa notícias de um desembarque de tropa inglesa, ocorrido em Lavos entre 1 e 8 de Agosto de 1808. O Estado-maior francês sabia igualmente que esta força marchava rapidamente em direcção a Lisboa, cujo porto era fundamental para ambas as partes e com grande parte do território em revolta contra a ocupação, o general Junot chamou a si todas as divisões que enviara em “acções de policiamento” e nomeadamente a divisão de Loison que se encontrava no Alentejo.
Dispunha entretanto da divisão Delaborde, a mais completa e mais bem treinada do seu exército, que apesar de ter dispensado efectivos para as outras, ainda contava com pouco mais de 4.000 homens. Foi então a escolhida para observar os movimentos do inimigo e se possível de contê-los.
Delaborde avança até Alcobaça onde lhe mostram o campo de batalha de Aljubarrota, julgado por ele como ineficaz para a guerra do século XIX, por isso retrocede para uma zona que já observara e que os mapas recolhidos pelo coronel Vincent lhe diziam ser perfeita para o que tinha em mente. Neste meio-termo as nuvens de pó levantadas pelos seus homens eram claramente visíveis para os ingleses, que apenas algumas horas depois entraram em Alcobaça. A presença francesa só confirmava os relatos que o general Wellesley já havia recebido e por isso resolve tomar precauções, enviando à frente do seu exército os regimentos de infantaria ligeira, com a missão de observarem.
No dia 15 de Agosto de 1808, estes homens encontram pela primeira vez os franceses em Brilos, mas só dois dias depois, na madrugada do dia 17, é que do alto do Moinho do Facho, em Óbidos, Wellesley observa uma linha francesa disposta numa colina perto da aldeia da Roliça.
Rapidamente organiza um plano de batalha que envolveria uma manobra em tenaz. Assim, pela direita (em direcção a Sul) avançaria o coronel Trant com cerca de 2.000 soldados portugueses, entre infantaria e cavalaria; pela direita os generais Ferguson e Bowes com duas brigadas e um reforço de artilharia, pois temia-se a aproximação por esse flanco do general Loison. Os restantes homens (3 brigadas) seguiam ao centro sob o comando do próprio Wellesley.
Os movimentos são lentos, pois o centro deveria dar tempo aos flancos para se aproximarem, o espectáculo proporcionado então é amplamente descrito pelos atónitos franceses, que mesmo assim aguentam firme e com os primeiros tiros iniciam uma retirada já prevista, uma vez que não era aqui que Delaborde queria resistir. Batalhão após batalhão recua até aos Altos da Columbeira, protegendo-se mutuamente até chegaram ao que era e é uma verdadeira fortaleza natural. Como resultado disto, Wellesley perdeu toda a manhã.
Delaborde contava poder aguentar esta segunda posição até à chegada de Loison, cuja divisão seria fundamental para equilibrar os números, afinal tinha pela frente cerca de 14.000 ingleses e com uma boa coordenação poderia mesmo pensar em derrotar o inimigo.
Já Wellesley teve de repetir toda a manobra inicial, os regimentos do centro receberam ordens para que apenas as companhias ligeiras entrassem em acção, mas o 29º era comandado pelo coronel George Lake, homem desejoso de notoriedade e crente na superioridade da baioneta sobre a bala, colocou todos os seus homens em linha e avançou por uma das ravinas acima. Por ter encontrado um terreno mais favorável, o 29º fora o primeiro a chegar ao sopé da Columbeira e sem apoio os homens carregaram e ainda chegaram bem perto do topo, só um rápido contra ataque comandado pelo general Brennier pôs cobro a este avanço, do qual resultaram cerca de 50 mortos entre os quais se encontrava o próprio Lake e muitos feridos e prisioneiros.
Perante isto Wellesley ordenou um avanço geral, acometendo os ingleses por todos os locais humanamente possíveis de serem escalados. Delaborde entretanto desesperava pela chegada de Loison o que não viria a concretizar-se e via-se novamente na iminência de ser cercado.
Pelo final da tarde a tropa inglesa do centro conseguiu finalmente chegar perto do topo, numa zona mais larga e plana, onde formaram as suas linhas e os franceses já não tinham capacidade para se lhes oporem. Como os flancos também já se aproximavam, Delaborde mais uma vez ordenou a retirada, a cavalaria protegia a infantaria e até chegarem à aldeia da Azambujeira dos Carros, tudo correu pelo melhor.
Depois centenas de homens a confluírem para as ruas estreitas geraram um grande engarrafamento, muito ampliado pelo pânico gerado pela aproximação do inimigo e a retirada organizada era agora uma debandada.
Wellesley pára a perseguição poucos quilómetros depois, ainda receava a aproximação de Loison e ordena a preparação da primeira refeição quente do dia.


* Historiador torriense, co-autor do livro “A Primeira Invasão Francesa”.


15/07/08

PASSEIO CULTURAL


ASSOCIAÇÃO PARA A DEFESA E DIVULGAÇÃO DO
PATRIMÓNIO CULTURAL DE TORRES VEDRAS


19 Julho 2008
(Sábado)

VISITA AOS CAMPOS DE BATALHA
DA ROLIÇA E DO VIMEIRO


Foi em Agosto de 2008, faz agora 200 anos. Sabe o local exacto destas batalhas? Sabe o que aconteceu realmente?
Tem agora uma oportunidade de conhecer.
Dois especialistas - Pedro Fiéis e João Pedro Tormenta, autores de um livro sobre a 1ª Invasão Francesa - vão guiar-nos aos lugares exactos, explicando o que se passou.

PROGRAMA

9.00 H – Concentração junto ao Museu Municipal de Torres Vedras

Parte da manhã: Visita à Roliça e Alto do Picoto, posições francesas. Evocação dos acontecimentos de 17 de Agosto de 1808.

ALMOÇO no restaurante O BRAGA, no Vimeiro

Parte da tarde: Visita aos lugares dos acontecimentos de 21 de Agosto de 1808, no Vimeiro

18.30 H – Chegada a Torres Vedras

Preço por pessoa: 25 € (inclui transporte, almoço e guias, com documentação)


Inscrições (limitadas a 50 pessoas): até 15 de Julho, para
J. Moedas Duarte: 962 435 928 Carlos Ferreira: 968 049 918

02/07/08

Texto 11 ( Jornal "BADALADAS", 27 / 06 / 2008




A Batalha de Dois Portos

Venerando Aspra de Matos *

No dia 9 de Outubro de 1810 o exército aliado chegava às Linhas de Torres. Com a chuva caída no dia 7 ou 8, conforme as fontes, encheu-se rapidamente o lado direito do rio Sizandro “tornando-se pelo lado de Torres Vedras n’um formidavel obstaculo defensivo sobre o flanco esquerdo da citada linha, não lhe restando então em toda ella, desde o Oceano até ao Tejo, mais do que um intervallo de duas leguas e meia, (…) não fortificado, ao sul do valle de Runa, entre a villa de Torres Vedras e Monte Agraço”[1].
Entretanto, fustigadas pelo mau tempo, as tropas francesas iam-se aproximando lentamente das Linhas, cuja existência só ficaram a conhecer no dia 11.
No dia 12 marchou a vanguarda do exercito francês para Vila Franca de Xira, “tomando lá as posições que julgou convenientes, distribuindo as tropas pela dita villa, por Povos e Castanheira (…)”, conquistando o Sobral.”Para alem de Runa, a serra do Barregudo e os fortes que se tinham levantado em Torres Vedras não permittiam ao marechal Massena movimento algum de flanco por aquelle lado, não lhe restando portanto mais que a possibilidade de dispor as suas tropas entre Villa Franca e o Sobral (…)”. O “oitavo corpo, cuja frente se achava para diante do Sobral”, ocupou as “menores alturas da citada serra do Barregudo, e” guarneceu “as duas margens do rio Sizandro até “ Dois Portos “sobre a estrada de Runa”.[2]
É na sequência deste posicionamento que tem lugar, em 13 de Outubro, a chamada “batalha de Dois Portos”.
O combate foi travado entre as tropas de um dos postos avançados das Linhas Torres Vedras, e uma “considerável força inimiga”, que, na tarde do dia 13, avançando sobre o mesmo posto, provocou a batalha. Nela participaram, pela parte aliada, duas companhias do regimento n.ºs 11 e 23.[3] Sabe-se que a posição definida para esses regimentos era, respectivamente, a Portela e a Patameira, entre as posições da Ribaldeira e do Sobral.[4]
O registo dessa batalha deve-se à memória anónima de um oficial português que a ela assistiu:
“ (…) fomos de madrugada formar para o outro lado da ponte de Dois Portos, a qual, assim como outra que ha do lado direito, estão já minadas para saltarem em caso de necessidade. Sendo já dia claro [13 de Outubro] retirámo-nos para os quarteis. Pelas duas horas da tarde, tendo-se percebido já que os francezes tentavam algum reconhecimento pelo lado do Sobral, para onde tinhamos as nossas avançadas, principiou-se a ouvir fogo, entre elles e uma avançada ingleza que havia á nossa esquerda: viu-se que um forte corpo de tropas francezas,tomava uma altura junto a um moinho. (…) A poucos minutos principiou o fogo com os nossos, pois que os estrangeiros [ingleses] se tinham retirado; e tanto valor mostravam as nossas tropas, que obrigaram os francezes a desistir da tentativa depois de bem destroçados. (…) Tivemos a sensivel perda do coronel Harvey commandante da brigada, que na acção ficou ferido, a ponto de lhe ser necessario ir tratar de si com todo o cuidado. (…) À noite tornou o inimigo para as suas antigas guardas; nós não baixámos: fizemos saltar as pontes.”.[5]
No dia seguinte ainda se registaram alguns recontros esporádicos à volta do Sobral, chegando nesse mesmo dia o grosso do exército francês.
Depressa os franceses se aperceberam da impossibilidade de se movimentarem mais para sul, lutando desesperadamente contra a falta de mantimentos.
Rotos, esfomeados, acossados pela guerrilha, os franceses comandados por Massena iniciaram a 15 de Novembro a retirada da frente das Linhas de Torres.


* Professor

NOTAS:

[1] Simão José da Luz Soriano, Historia da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal- segunda epocha- guerra peninsular, tomo III, Lisboa, Imprensa Nacional, 1874, pp. 217-218
[2] Simão José da Luz Soriano, Historia da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal- segunda epocha- guerra peninsular, tomo III, Lisboa, Imprensa Nacional, 1874, pp. 236 e 237
[3] Claudio de Chaby, Excertos Historicos e Collecção de Documentos relativos á Guerra Denominada da Peninsula (...), Lx. Imprensa Nacional, 1871, vol.III, pp.237-238
[4] Simão José da Luz Soriano, Historia da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal- segunda epocha- guerra peninsular, tomo III, Lisboa, Imprensa Nacional, 1874, p. 222
[5] do diário de um oficial do exército português, iniciado a 31 de Outubro de 1807 e citado por Claudio de Chaby nos Excertos Historicos e Collecção de Documentos relativos á Guerra Denominada da Peninsula (...), Lx. Imprensa Nacional, 1871, vol.III, pp.245-246